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Letra
Vencida
Machado
de Assis
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Letra
Vencida
CAPTULO PRIMEIRO
EDUARDO B. embarca amanh para a Europa. Amanh quer dizer 24 de
abril de 1861, pois estamos a 23,  noite, uma triste noite para ele, e para
Beatriz.
 Beatriz! repetia ele, no jardim, ao p da janela de onde a moa se
debruava estendendo-lhe a mo.
De cima  porque a janela ficava a cinco palmos da cabea de Eduardo
, de cima respondia a moa com lgrimas, verdadeiras lgrimas de dor.
Era a primeira grande dor moral que padecia, e, contando apenas dezoito
anos, comeava cedo. No falavam alto; poderiam chamar a ateno da
gente da casa. Note-se que Eduardo despedira-se da famlia de Beatriz
naquela mesma noite, e que a me dela e o pai, ao v-lo sair, estavam
longe de pensar que entre onze horas e meia-noite voltaria o moo ao
jardim para fazer uma despedida mais formal. Alm disso, os dous ces da
casa impediriam a entrada de algum intruso. Se tal supuseram  que no
advertiram na tendncia corruptora do amor. O amor peitou o jardineiro, e
os ces foram recolhidos modestamente para no interromper o ltimo
dilogo de dous coraes aflitos.
ltimo? No  ltimo; no pode ser ltimo. Eduardo vai completar os
estudos, e tirar carta de doutor em Heidelberg; a famlia vai com ele,
disposta a ficar algum tempo, um ano, em Frana; ele voltar depois. Tem
vinte e um anos, ela dezoito: podem esperar. No, no  o ltimo dilogo.
Basta ouvir os protestos que eles murmuram, baixinho, entre si e Deus,
para crer que esses dous coraes podem ficar separados pelo mar, mas
que o amor os uniu moralmente e eternamente. Eduardo jura que a levar
consigo, que no pensar em outra cousa, que a amar sempre, sempre,
sempre, de longe ou de perto, mais do que aos prprios pais.
 Adeus, Beatriz!
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 No, no v j!
Tinha batido uma hora em alguns relgios da vizinhana, e esse golpe
seco, soturno, pingando de pndula em pndula, advertiu ao moo de que
era tempo de sair; podiam ser descobertos. Mas ficou; ela pediu-lhe que
no fosse logo, e ele deixou-se estar, cosido  parede, com os ps num
canteiro de murta e os olhos no peitoril da janela. Foi ento que ela lhe
desceu uma carta; era a resposta de outra, em que ele lhe dava certas
indicaes necessrias  correspondncia secreta, que iam continuar
atravs do oceano. Ele insistiu verbalmente em algumas das
recomendaes; ela pediu certos esclarecimentos. O dilogo interrompia-se;
os intervalos de silncio eram suspirados e longos. Enfim bateram duas
horas: era o rouxinol? Era a cotovia? Romeu preparou-se para ir embora;
Julieta pediu alguns minutos.
 Agora, adeus, Beatriz;  preciso! murmurou ele dali a meia hora.
 Adeus! Jura que no se esquecer de mim?
 Juro. E voc?
 Juro tambm, por minha me, por Deus!
 Olhe, Beatriz! Acontea o que acontecer, no me casarei com outra;
ou com voc, ou com a morte. Voc  capaz de jurar a mesma cousa?
 A mesma cousa; juro pela salvao de minhalma! Meu marido  voc;
e Deus que me ouve h de ajudar-nos. Cr em Deus, Eduardo; reza a Deus,
pede a Deus por ns.
Apertaram as mos. Mas um aperto de mo era bastante para selar to
grave escritura? Eduardo teve a idia de trepar  parede; mas faltava-lhe o
ponto de apoio. Lembrou-se de um dos bancos do jardim, que tinha dous,
do lado da frente; foi a ele, trouxe-o, encostou-o  parede, e subiu; depois
levantou as mos ao peitoril; e suspendeu o corpo; Beatriz inclinou-se, e o
eterno beijo de Verona conjugou os dous infelizes. Era o primeiro. Deram
trs horas; desta vez era a cotovia.
 Adeus!
 Adeus!
Eduardo saltou ao cho; pegou do banco, e foi rep-lo no lugar prprio.
Depois tornou  janela, levantou a mo, Beatriz desceu a sua, e um
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enrgico e derradeiro aperto terminou essa despedida, que era tambm
uma catstrofe. Eduardo afastou-se da parede, caminhou para a portinha
lateral do jardim, que estava apenas cerrada, e saiu. Na rua, a vinte ou
trinta passos, ficara de vigia o obsequioso jardineiro, que unira ao favor a
discrio, colocando-se a distncia tal, que nenhuma palavra pudesse
chegar-lhe aos ouvidos. Eduardo, embora j lhe houvesse pago a
cumplicidade, quis deixar-lhe ainda uma lembrana de ltima hora, e
meteu-lhe na mo uma nota de cinco mil-ris.
No dia seguinte verificou-se o embarque. A famlia de Eduardo
compunha-se dos pais e uma irm de doze anos. O pai era comerciante e
rico; ia passear alguns meses e fazer completar os estudos do filho em
Heidelberg. Esta idia de Heidelberg parecer um pouco estranha nos
projetos de um homem, como Joo B., pouco ou nada lido em cousas de
geografia cientfica e universitria; mas sabendo-se que um sobrinho dele,
em viagem na Europa, desde 1857, entusiasmado com a Alemanha,
escrevera de Heidelberg algumas cartas exaltando o ensino daquela
Universidade, ter-se- compreendido essa resoluo.
Para Eduardo, ou Heidelberg ou Hong-Kong, era a mesma cousa, uma
vez que o arrancavam do nico ponto do globo em que ele podia aprender a
primeira das cincias, que era contemplar os olhos de Beatriz. Quando o
paquete deu as primeiras rodadas na gua e comeou a mover-se para a
barra, Eduardo no pde reter as lgrimas, e foi escond-las no camarote.
Voltou logo acima, para ver ainda a cidade, perd-la pouco a pouco, por
uma iluso da dor, que se contentava de um retalho, tirado  purpura da
felicidade moribunda. E a cidade, se tivesse olhos para v-lo, podia tambm
despedir-se dele com pesar e orgulho, pois era um esbelto rapaz,
inteligente e bom. Convm dizer que a tristeza de deixar o Rio de Janeiro
tambm lhe doa no corao. Era fluminense, no sara nunca deste ninho
paterno, e a saudade local vinha casar-se  saudade pessoal. Em que
propores, no sei. H a uma anlise difcil, mormente agora, que no
podemos mais distinguir a figura do rapaz. Ele est ainda na amurada; mas
o paquete transps a barra, e vai perder-se no horizonte.
CAPTULO II
PARA que hei de dizer que Beatriz deixou de dormir o resto da noite?
Subentende-se que as ltimas horas dessa triste noite de 23 de abril foram
para ela de viglia e desespero. Direi somente que tambm foram de
devoo. Beatriz, logo que Eduardo transps a porta do jardim, atirou-se 
cama soluando e sufocando os soluos, para no ser ouvida. Quando a dor
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amorteceu um pouco, levantou-se e foi ao oratrio de suas rezas noturnas e
matinais; ajoelhou-se e encomendou a Deus, no a felicidade, mas a
consolao de ambos.
A manh viu-a to triste como a noite. O sol, na forma usual, mandou
um dos seus raios mais jucundos e vivos ao rosto de Beatriz, que desta vez
o recebeu sem ternura nem gratido. De costume, ela dava a esse raio
amado todas as expanses de uma alma nova. O sol, pasmado da
indiferena, no interrompeu todavia o seu curso; tinha outras Beatrizes
que saudar, umas risonhas, outras lacrimosas, outras apticas, mas todas
Beatrizes... E l se foi o D. Joo do azul, espalhando no ar um milho
daquelas missivas radiosas.
No menos pasmada ficou a me ao almoo. Beatriz mal podia disfarar
os olhos cansados de chorar; e sorria,  verdade, mas um sorriso to
forado, to de obsquio e dissimulao, que realmente faria descobrir
tudo, se desde alguns dias antes as maneiras de Beatriz no tivessem
revelado tal ou qual alterao. A me supunha alguma molstia; agora,
sobretudo, que os olhos da moa tinham um ar febril, pareceu-lhe que era
caso de doena incubada.
 Beatriz, voc no est boa, disse ela  mesa.
 Sinto-me assim no sei como...
 Pois tome s ch. Vou mandar vir o doutor...
 No  preciso; se continuar amanh, sim.
Beatriz tomou ch, nada mais do que ch. Como no tinha vontade de
outra cousa, tudo se combinou assim, e a hiptese da doena foi
aparentemente confirmada. Ela aproveitou-a para meter-se no quarto o dia
inteiro, falar pouco, no fazer toilette, etc. No chamaram o mdico, mas
ele veio por si mesmo, o Tempo, que com uma de suas velhas poes
abrandou a vivacidade da dor, e tornou o organismo ao estado anterior,
tendo de mais uma saudade profunda, e a imortal esperana.
Realmente, s sendo imortal a esperana, pois tudo conspirava contra
ela. Os pais de ambos os namorados tinham a seu respeito projetos
diferentes. O de Eduardo meditava para este a filha de um fazendeiro, seu
amigo, moa prendada, capaz de o fazer feliz, e digna de o ser tambm; e
no meditava s consigo, porque o fazendeiro nutria iguais idias. Joo B.
chegara mesmo a insinu-lo ao filho, dizendo-lhe que na Europa iria v-lo
algum que provavelmente o ajudaria a concluir os estudos. Este foi, com
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efeito, o plano dos dous pais; seis meses depois, iria o fazendeiro com a
famlia  Alemanha, onde casariam os filhos.
Quanto ao pai de Beatriz, os seus projetos eram ainda mais definitivos, se
 possvel. Tratava de aliar a filha a um jovem poltico, moo de futuro, e
to digno de ser marido de Beatriz, como a filha do fazendeiro era digna de
ser mulher de Eduardo. Esse candidato, Amaral, freqentava a casa, era
aceito a todos, e tratado como pessoa de famlia, e com um tal respeito e
carinho, um desejo to intenso de o mesclar ao sangue da casa, que
realmente faria rir ao rapaz, se ele prprio no estivesse namorado de
Beatriz. Mas estava-o, e grandemente namorado; e tudo isso aumentava o
perigo da situao.
No obstante, a esperana subsistia no corao de ambos. Nem a
distncia, nem os cuidados diversos, nem o tempo, nem os pais, nada
diminua o vio dessa flor misteriosa e constante. No disseram outra cousa
as primeiras cartas, recebidas por um modo to engenhoso e to simples,
que vale a pena cont-lo aqui, para uso de outros desgraados. Eduardo
mandava as cartas a um amigo; este passava-as a uma irm, que as
entregava a Beatriz, de quem era amiga e companheira de colgio.
Geralmente as companheiras de colgio no se recusam a estes pequenos
obsquios, que podem ser recprocos; em todo o caso  so humanos. As
duas primeiras cartas, assim recebidas, foram a transcrio dos protestos
feitos naquela noite de 23 de abril de 1861; transcrio feita com tinta, mas
no menos valiosa e sincera do que se o fora com sangue. O mar, que
deixou passar essas vozes concordes de duas almas violentamente
separadas, continuou o perptuo movimento da sua instabilidade.
CAPTULO III
BEATRIZ voltou aos hbitos anteriores, aos passeios, saraus e teatros do
costume. A tristeza, de aguda que era e manifesta, tornou-se escondida e
crnica. No rosto era a mesma Beatriz, e tanto bastava  sociedade.
Naturalmente no tinha a mesma paixo da dana, nem a mesma
vivacidade de maneiras; mas a idade explicava a atenuao. Os dezoito
anos estavam feitos; a mulher completara-se.
Quatro meses depois da partida de Eduardo, entendeu a famlia da moa
apressar o casamento desta; e eis aqui as circunstncias da resoluo.
Amaral cortejava a moa ostensivamente, dizia-lhe as finezas usuais,
freqentava a casa, ia onde ela fosse; punha o corao em todas as aes e
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palavras. Beatriz entendia tudo e no respondia a nada. Usou duas polticas
diferentes. A primeira foi mostrar-se de uma tal ignorncia que o
pretendente achasse mais razovel esquec-la. Pouco durou esta; era
improfcua, tratando-se de um homem verdadeiramente apaixonado.
Amaral teimou; vendo-se desentendido, passou a linguagem mais direta e
clara. Ento comeou a segunda poltica; Beatriz mostrou que entendia,
mas deixou ver que nada era possvel entre ambos. No importa; ele
teimou ainda mais. Nem por isso venceu. Foi ento que o pai de Beatriz
interveio.
 Beatriz, disse-lhe o pai, tenho um marido para ti, e estou certo que
vais aceit-lo...
 Papai...
 Mas ainda que, a princpio recuses, no por ser indigno de ns; no 
indigno, ao contrrio;  pessoa muito respeitvel... Mas, como ia dizendo,
ainda que a tua primeira palavra seja contra o noivo, previno-te que 
desejo meu e h de cumprir-se.
Beatriz fez um movimento de cabea, rpido, espantado. No estava
acostumada quele modo, no esperava a intimao.
 Digo-te que  um moo srio e digno, repetiu. Que respondes?
 Nada.
 Aceitas ento?
 No, senhor.
Desta vez foi o pai que teve um sobressalto; no por causa da recusa;
ele esperava-a, e estava resolvido a venc-la, segundo a avisou desde logo.
Mas o que o espantou foi a prontido da resposta.
 No? disse ele da a um instante.
 No, senhor.
 Sabes o que ests dizendo?
 Sei, sim, senhor.
 Veremos se no, bradou o pai levantando-se, e batendo com a cadeira
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no cho; veremos se no! Tem graa! No, a mim! Quem sou eu? No! E
por que no? Naturalmente, anda a algum petimetre sem presente nem
futuro, algum bailarino, ou estafermo. Pois veremos...
E ia de um lado para outro, metendo as mos nas algibeiras da cala,
tirando-as, passando-as pelos cabelos, abotoando e desabotoando o palet,
fora de si, irritado.
Beatriz deixara-se estar sentada com os olhos no cho, tranqila,
resoluta. Em certo momento, como o pai lhe parecesse exasperado demais,
levantou-se e foi a ele para aquiet-lo um pouco; mas ele repeliu-a.
 V-se embora, disse-lhe; v refletir no seu procedimento, e volte
quando estiver disposta a pedir-me perdo.
 Isso j; peo-lhe perdo j, papai... No quis ofend-lo, nunca o
ofendi... Perdoe-me; vamos, perdoe-me.
 Mas recusas?
 No posso aceitar.
 Sabes quem ?
 Sei: o dr. Amaral.
 Que tens contra ele?
 Nada;  um moo distinto.
O pai passou a mo pelas barbas.
 Gostas de outro.
Beatriz calou-se.
 Vejo que sim; est bem. Quem quer que seja, no ter nunca a minha
aprovao. Ou o dr. Amaral, ou nenhum mais.
 Nesse caso, nenhum mais, respondeu ela.
 Veremos.
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CAPTULO IV
NO percamos tempo. Beatriz no casou com o noivo que lhe davam; no
aceitou outro que apareceu no ano seguinte; mostrou uma tal firmeza e
deciso, que encheu o pai de assombro.
Assim se passaram os dous primeiros anos. A famlia de Eduardo voltou
da Europa; este ficou, para tornar quando acabasse os estudos. Se me
parecesse, ia j (dizia ele em uma carta  moa), mas quero conceder isto,
ao menos, a meu pai: concluir os estudos.
Que ele estudava,  certo, e no menos certo  que estudava muito.
Tinha vontade de saber, alm do desejo de cumprir, naquela parte, as
ordens do pai. A Europa oferecia-lhe tambm alguns recreios de diversa
espcie. Ele ia nas frias  Frana e  Itlia, ver as belas-artes e os grandes
monumentos. No  impossvel que, algumas vezes, inclusse no captulo
das artes e na classe dos monumentos algum namoro de ordem passageira;
creio mesmo que  negcio liquidado. Mas, em que  que essas pequenas
excurses em terra estranha lhe faziam perder o amor da ptria, ou, menos
figuradamente, em que  que essas expanses midas do sentimento
diminuam o nmero e a paixo das cartas que mandava a Beatriz?
Com efeito, as cartas eram as mesmas de ambos os lados, escritas com
igual ardor s das primeiras semanas, e nenhum outro mtodo. O mtodo
era o de um dirio. As cartas eram compostas dia por dia, como uma nota
dos sentimentos e dos pensamentos de cada um deles, confisso de alma
para alma. Parecer admirvel que este uso fosse constante no espao de
um, dous, trs anos; que diremos cinco anos, sete anos! Sete, sim,
senhora; sete, e mais. Mas fiquemos nos sete, que  a data do rompimento
entre as duas famlias.
No importa saber por que brigaram as duas famlias. Brigaram;  o
essencial. Antes do rompimento desconfiaram os dous pais que os filhos
tinham-se jurado alguma cousa antes da separao, e no estavam longe
de concordar em que se casassem. Os projetos de cada um deles tinham
naufragado; eles estimavam-se; nada havia mais natural do que aliarem-se
mais intimamente. Mas brigaram; veio no sei que incidente estranho, e a
amizade converteu-se em dio. Naturalmente um e outro pensaram logo na
possibilidade do consrcio dos filhos, e trataram de afast-los. O pai de
Eduardo escreveu a este, j diplomado, dizendo que o esperasse na Europa;
o de Beatriz inventou um pretendente, um rapaz desambicioso que jamais
pensaria em pedi-la, mas que o fez, animado pelo pai.
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 No, foi a resposta de Beatriz.
O pai ameaou-a; a me pediu-lhe por tudo o que havia de mais
sagrado, que aceitasse o noivo; mostrou-lhe que eles estavam velhos, e
que ela precisava ficar amparada. Foi tudo intil. Nem esse pretendente
nem outros que vieram, uns por mo do pai, outros por mo alheia. Beatriz
no iludia ningum, ia dizendo a todos que no.
Um desses pretendentes chegou a crer-se vencedor. Tinha qualidades
pessoais distintas, e ela no desgostava dele, tratava-o com muito carinho,
e pode ser que sentisse algum princpio de inclinao. Mas a imagem de
Eduardo vencia tudo. As cartas dele eram o prolongamento de uma alma
querida e amante; e aquele candidato, como os outros, teve de recuar
vencido.
 Beatriz, vou morrer dentro de poucos dias, disse-lhe um dia o pai; por
que me no ds o gosto de deixar-te casada?
 Qual, morrer!
E no respondia  outra parte das palavras do pai. Eram j passados
nove anos da separao. Beatriz tinha ento vinte e sete. Via chegar os
trinta com tranqilidade e a pena na mo. No seriam j dirias as cartas,
mas eram ainda e sempre pontuais; se algum paquete no as trazia ou
levava, a culpa era do correio, no deles. Realmente, a constncia era
digna de nota e admirao. O mar separava-os, e agora o dio das famlias;
e alm desse obstculo, deviam contar com o tempo, que tudo afrouxa, e as
tentaes que eram muitas de um e outro lado. Mas apesar de tudo,
resistiam.
O pai de Beatriz morreu dali a algumas semanas. Beatriz ficou com a
me, senhora achacada de molstias, e cuja vida naturalmente no iria
tambm muito longe. Esta considerao deu-lhe nimo para tentar os
ltimos esforos, e ver se morria deixando a filha casada. Empregou os que
pde; mas o resultado no foi melhor.
Eduardo na Europa sabia tudo. A famlia dele trasladou-se para l,
definitivamente, para o fim de o reter, e tornar impossvel o encontro dos
dous. Mas, como as cartas continuavam, ele sabia tudo o que se passava no
Brasil. Teve notcia da morte do pai de Beatriz, e dos esforos empregados
por ele e depois pela mulher, viva, para estabelecer a filha; e soube (pode
imaginar-se com que satisfao) da resistncia da moa. O juramento da
noite de 23 de abril de 1861 estava de p, cumprido, observado  risca,
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como um preceito religioso, e, o que  mais, sem que lhes custasse mais do
que a pena da separao.
Na Europa, morreu a me de Eduardo; e o pai teve um instante idias de
voltar ao Brasil; mas era odiento, e a idia de que o filho podia ento casar
com Beatriz fixou-o em Paris.
Verdade  que ela no deve estar muito tenra... dizia ele consigo.
Eram ento passados quinze anos. Passaram-se mais alguns meses, e a
me de Beatriz morreu. Beatriz ficou s, com trinta e quatro anos. Teve
idia de ir para Europa, com alguma dama de companhia; mas Eduardo
contava ento vir ao Rio de Janeiro arranjar alguns negcios do pai, que
estava doente. Beatriz esperou; mas Eduardo no veio. Uma amiga dela,
confidente
dos amores, dizia-lhe:
 Realmente, Beatriz, voc tem uma pacincia!
 No me custa nada.
 Mas esperar tanto tempo! Quinze anos!
 Nada mais natural, respondia a moa; eu suponho que estamos
casados, e que ele anda em viagem de negcios.  a mesma cousa. Essa
amiga estava casada; tinha j dous filhos. Outras amigas e companheiras
de colgio tinham casado tambm. Beatriz era a nica solteira, e solteira
abastada e pretendida. Agora mesmo, no lhe faltavam candidatos; mas a
fiel Beatriz conservava-se como dantes.
Eduardo no veio ao Brasil, segundo contava, nem naquele nem no
ano seguinte. As doenas do pai agravaram-se, tornaram-se longas; e nisto
correram mais dous anos. S ento o pai de Eduardo morreu, em Nice, no
fim de 1878. O filho arranjou os primeiros negcios e embarcou para o Rio
de Janeiro.
 Enfim!
Tinham passado dezoito anos. Posto que eles tivessem trocado os
retratos, mais de uma vez durante esse lapso de tempo, acharam-se
diferentes do que eram na noite da separao. Tinham passado a idade dos
primeiros ardores; o sentimento que os animava era brando, embora tenaz.
Vencida a letra, era razovel pagar; era mesmo obrigatrio. Trataram
dos papis; e dentro de poucas semanas, nos fins de 1878, cumpriu-se o
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juramento de 1861. Casaram-se, e foram para Minas, de onde voltaram trs
meses depois.
 So felizes? perguntei a um amigo ntimo deles, em 1879.
 Eu lhe digo, respondeu esse amigo observador. No so felizes nem
infelizes; um e outro receberam do tempo a fisionomia definitiva, apuraram
as suas qualidades boas e no boas, deram-se a outros interesses e
hbitos, colheram o fastio e a marca da experincia, alm da surdina que os
anos trazem aos movimentos do corao. E no viram essa transformao
operar-se dia por dia. Despediram-se uma noite, em plena florescncia da
alma, para encontrarem-se carregados de fruto, tomados de ervas
parasitas, e com certo ar fatigado. Junte a isto o despeito de no achar o
sonho de outrora, e o de o no trazer consigo; pois cada um deles sente
que no pode dar a espcie de cnjuge que alis deseja achar no outro;
pense mais no arrependimento possvel e secreto de no terem aceitado
outras alianas, em melhor quadra; e diga-me se podemos diz-los
totalmente felizes.
 Ento infelizes?
 Tambm no. Vivem, respeitam-se; no so infelizes, nem podemos
dizer que so felizes. Vivem, respeitam-se, vo ao teatro...
******
14
Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e
faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de
1908. Filho de mulato, brasileiro, e de branca,
portuguesa; era gago, epilptico, pobre,  por
causa disto no pde estudar em escolas e tornouse
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense", foi
aprendiz de tipgrafo na Imprensa Nacional, onde
conheceu seu protetor, Manuel Antonio de Almeida;
foi revisor de provas na Editora Paula Brito e no
"Correio Mercantil" e colaborador em vrios jornais
e revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica, muitos
dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana, Job, M.A.,
Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua vida
literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo soneto
de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
15
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase Ministro", "Os
Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de Casa
Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra 
de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em toda sua
obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e muito de
filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance "Quincas
Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante para a
compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos captulos: ora
curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear, isto , muitas vezes
um captulo no tem um final de ao, que ir continuar no no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta tcnica procura prender a ateno
do leitor at o fim do livro, o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua obra
vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios, constituindo-se
no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um escritor nacional.
Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de sua obra, a parte de
fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu prprio
sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples, sem
nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes caractersticas.
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem. No foi grande
poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano. Para
Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante da felicidade ou
infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente  prpria condio
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso.
Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo
humano.
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No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo. Como
critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode aberrar das
condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico das abstraes.
0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo grego: uma iniciativa
de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o soneto,
dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a alternncia do
octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a Artur de Oliveira.
Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o ritmo dos
agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel lio de poesia
quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de Pombal, publicou,
sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h
dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a primeira
fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia, a
quem devemos pelo o que seria diferente da j representa uma evoluo. Vai
eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia romntica
nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875), Helena (1876) e
Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos personagens e do entrecho;
revela-se a personalidade do autor na preocupao mais acentuada do estudo dos
caracteres. Mas as situaes que arma, para os revelar, e a prpria compreenso
que deles tem, tudo trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise
psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao, a
lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso 
significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com a
inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei em
1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos
e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio
por onze amigos". Galhofando dos ascendentes, fala da prpria genealogia.
Assevera que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacutico, um emplastro medicamentoso.
Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos dias
de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado num
hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto de uma
montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais, tiveram grande
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influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas: tio Joo, homem de
lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso e severo; Dona
Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs passou uma infncia de
menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a gastar
demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela gostava de
jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amou-me, diz Brs
Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o pai tomou
conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o curso jurdico e
bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava
moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na
Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo deputado.
Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura aumentar o circulo
de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o caminho para o futuro
deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao Conselheiro Dutra que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual se
apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam prestes a
realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto aconteceu um
imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a namorada, mas
tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre. Virglia casa-se
com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o marido. Mas, na
verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e ama realmente a Brs
Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com freqncia e, em breve,
tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e nela confiava inteiramente.
Alis no tinha muito tempo para observar o que se passava, j que estava
entregue totalmente  poltica.
Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de escola
primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do
encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara o relgio. Os
encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e mexericos dos
vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a Virglia a fuga para
um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a ama e na famlia, e
sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idia parece boa a Brs, que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em
alguma rua escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
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encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem
suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi
designado como presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se
com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao
amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina, procura fazer ver
ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstio do
que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no aceitando mais o cargo de
presidente, porque o decreto de nomeao sara publicado no Dirio oficial num dia
13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe
uma carta annima denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com
que os dois amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens: Lobo
neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o interior do pas
levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs, volta a
insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se Nh-lol.
Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente, mas Nh-lol
vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se tambm
com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia atrado
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os amores de
Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relgio,
passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana de
um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria filosficoreligiosa,
o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs Cubas passa a
interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo
Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como o havia trado com
sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido
completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba,
por causa de urna molstia que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brs Cubas".
E o livro conclui:
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"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me com um
pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: no tive
filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa acompanha
os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou. A
vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao cnica
ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada. Pessimismo
(influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na Literatura
Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre dois mundos,
foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo s idealizaes
romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo v e tudo julga,
Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que
restou foram as memrias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte. Criou
uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal, eterno,
comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse principio
indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se encontram,
frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro para sustentar
uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo que vence, ganha as
batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice condimentam as lies de
Quincas Borba.
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto. Um
filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade, viva de
parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro. Rubio foi o
melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de Brs
Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo. Herdeiro de
tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona,
escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias, dinheiro, livros, a
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filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula nica do testamento era
tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado pelo
tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de mostr-la a
todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia aprendeu logo e bem a
arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os seus
desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0 dinheiro
acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando. Rubio passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que  Napoleo III .
Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai para Barbacena.
L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas Borba, tambm morto,
numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos, rite.
 a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais, concluda
com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies polticas acabam
levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde mestre-escola, ingnuo e
puro, envolve-se em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta-o 
loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico, explorado
pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda metade
do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo natural que,
na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram de
Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j est
com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
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Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de Bentinho,
viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa, se fosse
bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso (padre ou freira, conforme o
sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a promessa: Bentinho iria para o
seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se transforma
em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se tornando um grave
problema para os dois, que buscam todas as maneiras de evit-lo. Justina, prima
de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem Bentinho suplica que interceda
com a me em seu favor, se nega. Jos Dias, velho empregado da casa, muito
estimado, diz que o problema no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o
caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem
sequer consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas
de evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar
apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu amigo
e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as visitas
semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma idia: Dona
Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto , custeando as
despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do seminrio. A idia
vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado em Direito, casa-se com
Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna
maior quando Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha,
amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha, 
qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode chamar
tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem promessas e
rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos pais. Chama-se
Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e Capitu. Certo dia,
Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha retira-se
para o Paran, onde possua parentes.
E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os mesmos
olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta Bentinho, e
uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam passado despercebidas
comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode
com Capitu, que no consegue encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas
desculpas confirmam definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o
filho de Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente, tambm
morre.
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 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o meu
melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS DUAS
PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador coloca-se num
ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem contamin-los,
episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas apenas da carga
emocional correspondente ao impacto do momento da ocorrncia.
Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do passado o ngulo do
prprio momento da evocao, marcado pelo desmoronamento da iluso de sua
felicidade. Dessa forma temos uma dupla viso da experincia, reconstituda em
termos de exposio e de anlise. A viso esfumaada do adultrio  um dos
requintes do Bruxo do Cosme Velho (Machado). Parece inspirado no drama de
Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte criao
de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai tecendo o seu
destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles.  medida
que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos diversos:
so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro  dissimulado e
conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. J adultos, a causa
principal de suas divergncias passa a ser de ordem poltica  Paulo  republicano
e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca da Proclamao da Repblica,
quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem ambos
gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos dois: 
retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias levou o
conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro  mais um
grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como memorialista no
prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata aposentado, de hbitos
discretos e gosto requintado, amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta
o pensamento do prprio romancista.
As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de Flora,
tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua. Continuam a se
desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se elegeram deputados,
e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento de amizade eterna, este
feito junto ao leito da me agonizante.
23
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade e
contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados paralelamente, ao
longo das memrias do conselheiro Aires, personagem surgido em Esa e Jac: o
do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo. Trata-se de um livro concebido
em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de melancolia. Nele Machado de Assis
ps muito dos ltimos anos de sua vida com Carolina, falecida quatro anos antes
da publicao. No h muito que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de
um casal de velhos. 0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice,
pretendeu com este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em
tom de mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos seus primeiros
romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do amor. Distingue-o,
porm, e torna-a muito superior queles a mestria do ofcio, o domnio do
instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o ntimo
atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a dar alguma
idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro, com outras
intenes e de outra tessitura.
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